O debate em torno das vitaminas não é recente, supera minha própria idade, mas ainda continua em evidência nos tempos atuais tanto no campo social quanto dos cuidados médicos. O problema não é o debate, mas a crença positiva por trás do uso de vitaminas para os mais diversos propósitos clínicos, variando desde prevenção de um resfriado até a redução do risco de desfechos maiores como sepse, câncer e doença coronariana. Essa crença é ainda apoiada por motivações baseadas em "prova social", consumismo exacerbado pela indústria e falta de educação científica entre profissionais de saúde e a sociedade.
Mas o que é uma vitamina?
Ao contrário do que se pensa, vitamina não compreende somente uma substância química, mas um grupo de moléculas com função biologicamente ativa ou inativa no organismo. Por exemplo, a vitamina A (retinol) compete o all trans retinol, 11-cis retinal, all trans ácido retinóico e outros metabólitos produzidos por conjugação ou reações de oxidação das formas anteriores. Apenas o 11-cis retinal (função visual) e o all trans ácido retinóico (expressão de genes) são as formas ativas dessa vitamina.
De um modo geral, as vitaminas podem atuar na regulação dos fatores de transcrição, como cofator enzimático de reações químicas importantes do metabolismo energético, regulação do transporte de substâncias e entre outras funções biológicas. Agora imagine que podemos ainda separar essas diversas vitaminas em dois grupos: As lipossolúveis (A, D, E e K) e hidrossolúveis (B1, B2, B3, B5, B6, B7, B9, B12, C). Cada uma apresenta seu mecanismo de absorção, transporte, mecanismo de ação, excreção, recomendação diária para prevenir deficiência e promover benefício a saúde. De fato, o mundo das vitaminas não parece ser tão simples como se pensa e vende pelo mundo à fora, então vamos compreender melhor seus conceitos.
É importante lembrar: Com exceção da vitamina D, nosso organismo não possui capacidade bioquímica para produção relevante das diversas vitaminas mencionadas anteriormente. Por isso, podemos considerar que essas moléculas são essencias e devem ser obtidas por meio da alimentação. Logo, consumir ou suplementar vitaminas em casos de deficiência nutricional são condutas obviamente necessárias e não devem ser foco de discussões quanto a sua real eficácia.
Por isso a orientação, se alimente bem e mantenha um bom estado nutricional!
Mas será que vale suplementar além da suficiência nutricional?
Apesar de ser extremamente plausível a suplementação de vitaminas como propósito preventivo (pós cirurgia bariátrica) ou corretivo (casos de deficiência), seu uso em situações de suficiência nutricional foge da perspectiva do plausivelmente extremo. Pelo contrário, remete a grande incerteza, sendo necessária análise de plausibilidade e probabilidade dessa hipótese.
Plausibilidade: É interessante pensar que o organismo humano poderia se beneficiar por relação de dose-resposta considerando a oferta suplementar das vitaminas, mas não é bem assim que nossa máquina biológica demonstra. Todas as vitaminas apresentam seu nível de suficiência associada a garantia da manutenção das atividades bioquímicas inerentes a sua função no organismo, sendo armazenada, metabolizada (via Citocromo p450) e excretada pelo corpo. Daí pode ocorrer os famosos sinais de toxicidade aguda ou crônica quando a dose ofertada supera a nossa capacidade em garantir essa homostase metabólica associada.
Definitivamente, a relação de dose-resposta tem seu limite. Superar esse limite não confere mais benefício clínico e pode causar mais prejuízos não intencionais do que benefícios.
Considerando que não vivemos em um mundo científico perfeito, as vitaminas foram testadas em grandes ensaios clínicos utilizando amostras de pacientes sem deficiência diagnosticada nos mais diversos desfechos. O PHS II, HOPE, HOPE-2, VITAL, SELECT não demonstram benefícios do uso das principais vitaminas (D, E, B6, C) na redução do risco de câncer e doença cardiovascular.
Se por um lado, suplementar não reduz os principais desfechos clínicos, seu excesso pode aumentar o risco de sinais associados a toxicidade. Esse risco pode aumentar com os conhecidos "soros da imunidade". Segue abaixo alguns sinais decorrentes das principais vitaminas:
Vitamina C: Doses acima de 2000 mg/dia estão associadas a litíase renal.
Portanto, devemos evitar o uso de crenças naturalistas que superestimem o benefício das vitaminas. Quanto mais, não é melhor. Pelo contrário, pode prejudicar mais do que ajudar. Precisamos usar de raciocínio bayesiano, investigar individualmente o estado nutricional daquela substância e, só assim, decidir pela oferta suplementar.
Estratificar risco de carência em vitamina já é um ato bayesiano de investigação. Qualquer estudante ou profissional da nutrição não teria dificuldade em responder a seguinte pergunta: Quem apresenta maior risco de deficiência para vitamina B12, um paciente pós-cirurgia bariátrica (dados da literatura: 30%) ou um homem adulto que consome alimentos de origem animal? Esse risco basal é um importante ponto de partida para uma investigação do estado nutricional. Ou seja, "ancore seu julgamente a partir do risco basal". Após uso dos exames e confirmação da deficiência, a decisão deve ser suplementar. A magnitude do benefício é muito alta.
Como devemos usar o raciocínio bayesiano:
1. Ancore seu julgamento da probabilidade de um resultado numa taxa-base plausível.
2. Questione a diagnosticidade de sua evidência.
3. Defina uma probabilidade posterior





