domingo, 1 de maio de 2022

O problema da falácia narrativa na nutrição



Se eu pudesse definir em uma só frase qual é o maior erro de alguns profissionais atuantes na nutrição, seria: "A prática inconsciente da falácia narrativa". São dois os fatores que levam a essa prática, sendo de grande valia a reflexão sobre eles. Além disso, não se sintam afetados negativamente caso já tenham praticado falácias narrativas, eu mesmo já utilizei deste artifício principalmente na época da faculdade.

1. Heurística por simplificação: Apesar de ainda não ter abordado aqui sobre os conceitos de heurísticas e erros cognitivos, devemos compreender inicialmente que nosso biológico tende a simplificar a maioria das questões do universo em nossa volta, independentemente do seu nível de complexidade. Talvez em decorrência da facilidade proporcionada para armazenar tais informações (memória), talvez porque nossa mente depende de um mundo mais "organizado" ou "padronizado" do que ele realmente é, facilitando assim nossa compreensão e vivência em um mundo de grande incerteza e aleatoriedade.

Trazendo para nossa área, é muito mais fácil compreender que ômega 3 previne doença cardiovascular em decorrência da justificativa no seu efeito antiinflamatório ou redutor de triglicérides do que enfrentar a metodologia de um ensaio clínico randomizado avaliando desfechos clínicos (por sinal já existe ensaio clínico positivo sobre essa questão de pesquisa). Quem nunca ouviu falar do famoso suplemento emagrecedor L-Carnitina ou outro composto voltado para o mesmo desfecho, mesmo não afetando o balanço energético e desafiando as leis da termodinâmica (1° lei) ainda são difundidos e vendidos com base em uma heurística simplificada.

Sendo assim, simplificar pode nos levar a erro de julgamento, mesmo que seja uma espécie de "inclinação" biológicamente inerente do ser humano para entender o universo a sua volta, podemos minimizar esse tipo de erro por meio da prática do ceticismo, conhecimento a priori da questão de pesquisa e como se comportam as variáveis investigadas.

2. Complexidade biológica: Esse segundo fator torna a nutrição o ambiente perfeito para a falácia narrativa. Nossa biologia é altamente complexa, tornando o estudo da interação entre corpo humano e nutrição um campo repleto de incertezas. Um campo desse tipo acentua a possibilidade da heurística simplificada, evocando a ocorrência de diversas situações vergonhosas vistas nas redes sociais por parte de alguns profissionais da saúde: "Consumir carboidrato engorda porque eleva insulina", "consumir fruta prejudica o fígado por causa da frutose", "fazer dieta cetogênica aumenta a performance no endurance".

Pior ainda é quando informações baseadas em falácia narrativa evoluem para um maior nível de persuasão entre os profissionais como, por exemplo, pós graduações e especializações muitas vezes repletas de nomes chamativos disfarçados por um bom marketing de divulgação: "Especialização em low carb", "nutrição holística", pasmem.

Ainda nos dias atuais, quando alguém me pergunta qual o maior problema de alguns profissionais atuantes na minha área, sempre bato na mesma tecla: "O maior problema é a falácia narrativa". Nunca digo primeiro que é a desonestidade (apesar de também ser um problema), justamente porque tanto seres honestos quanto desonestos estão sujeitos a prática de falácias. Esse é um problema que tem mais haver com racionalidade do que inteligência. Sendo assim, abordaremos a seguir esse tema antes de finalizarmos o presente texto.

Inteligência x racionalidade

Você poderia me citar diversos indivíduos ou profissionais da saúde que considera inteligente. Digamos, por exemplo, um nutricionista bioquímico pós-doc ou especialista em bioinformática, um médico bioestatístico pós-doc, entre outros. Nenhum desses indivíduos estão excluídos de praticarem falácias mesmo dentro de sua área de formação. Para um profissional da saúde, falácia narrativa torna-se um problema porque afeta a conduta, chega no nível clínico e torna-se relevante. Compreender como essa prática influencia nosso conhecimento científico do universo estudado requer maior dependência do uso da racionalidade. Em outras palavras, para atuar em nutrição, vale mais a pena para um profissional inteligente em sua área ou não, praticar racionalidade ou compreender uma questão de pesquisa como ela realmente é, considerando o nível de incerteza.

Inteligência consiste em uma "facilidade" ou aptidão para uma determinada complexidade. Diferentemente, racionalidade consiste na capacidade do indivíduo de insistir no verdadeiro entendimento do universo. É quando tomamos ciência de uma problema que buscamos resolver. Do ponto de vista cognitivo, tornar-se um ser mais racional requer dispêndio de energia e maior tempo para processar informações.

Se você ouvir dizer que alguém é inteligente na área da saúde porque compreende mecanismos, hipóteses e conceitos isolados, prefira optar por ser aquele que dentro do meio científico consiga distinguir o quanto provável é a veracidade de uma hipótese no universo a partir das características das evidências disponíveis sobre ela.


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