Continua sendo frequente a quantidade de pessoas que buscam uma resposta quantitativa para o impacto individual da dieta ou exercício físico na perda de peso. Muitas vezes por um motivo de dúvida (- dieta ou exercício? Devo fazer ambos?) ou tentativa de compensação (- Posso comer de tudo, pois faço exercício físico). Isso faz parte da vida das pessoas, considerando uma sociedade em crescente prevalência de sobrepeso e obesidade. Como já demonstrado em diversos inquéritos transversais norte-americanos.
Confesso que sou um grande entusiasta da prática semanal de exercício físico e esporte, sendo muito importante a contínua vigilância para o viés da naturalidade, dado o risco basal. Portanto, em situações como essa é necessário treinamento mental e autonomia intelectual para minimizar vieses de caráter cognitivo. Falaremos hoje sobre o ensaio clínico randomizado: Weight Loss, Exercise, or Both and Physical Function in Obese Older Adults.
A priori, o ensaio foi realizado em idosos com obesidade (IMC > 30 kg/m²), metodologicamente bem dimensionado do ponto de vista amostral, disponibilização de protocolo prévio e boa adesão as intervenções. Como bem sabemos, estudos de estilo de vida apresentam maior dificuldade para cegamento, podendo existir viés de performance, principalmente quando o desfecho é subjetivo. Os indivíduos foram randomizados em quatro grupos: Grupo controle; Grupo que realizou apenas dieta com déficit calórico; Grupo apenas exercício; Grupo que realizou dieta com déficit calórico + exercício. Sendo acompanhados durante um período de 1 ano.
Considerando a característica das intervenções, a dieta foi baseada na oferta de uma alimentação balanceada em vegetais, moderada em proteínas (em torno de 1 g/kg de peso atual/dia) e com déficit de 500 - 750 kcal. Já as características da intervenção do treinamento físico foram 90 minutos com combinação de exercício aeróbico, resistido e destinados a melhora de flexibilidade realizados três sessões na semana. Se exercitaram inicialmente a 65% da frequência cardíaca máxima, atingindo um aumento gradual até 70 - 85%. Treinamento resistido foi realizado inicialmente a 65% de uma repetição máxima, aumentando gradualmente até atingir 80%.
O presente estudo foi negativo para perda de peso relevante do grupo exercício (perda de peso de 1,8; DP: 2,7 kg - % perda de peso: 1%) em comparação com dieta (perda de peso de 9,7; DP: 5,4 kg - % perda de peso: 10%) ou dieta + exercício (perda de peso de 8,6; DP: 3,8 kg - % perda de peso: 9%). Adicionalmente, os dados foram semelhantes em relação a perda de gordura corporal: Grupo dieta (perda de massa gorda de 7,1; DP: 3,9 kg - % perda: 17%), grupo dieta + exercício (perda de massa gorda de 6,3; DP: 3,8 kg - % perda: 16%) e grupo exercício (perda de massa gorda de 1,8; DP: 1,9 kg - % perda: 5%).
Finalmente, o ensaio demonstrou que praticar exercício físico promoveu melhora da funcionalidade e qualidade de vida dos idosos avaliados, mas quando usado sem acompanhamento dietético, não apresentou melhora clínicamente relevante no emagrecimento ao final da intervenção.
A prova do conceito
É muito comum a utilização de apenas uma evidência para provar um conceito maior. Isso quando nem utilizamos evidência, como naqueles casos em que as pessoas se baseiam apenas em vias bioquímicas ou pensamentos meramente lógicos para confirmar suas crenças prévias. Sendo assim, precisamos saber previamente se estamos diante de uma hipótese óbvia em relação ao desfecho avaliado. Antes mesmo de ler uma evidência.
O estudo apenas corrobora com a hipótese da termodinâmica no emagrecimento: "É necessário a promoção de um balanço energético negativo sustentado para eficácia nesse desfecho". Uma vez que o grupo que realizou exercício isoladamente não conseguiu estar em déficit, é improvável algum resultado relevante. Portanto, fazer exercício físico sem déficit calórico dificilmente estará associado com resultados clinicamente importantes no emagrecimento ao final de uma intervenção.
Isso é diferente de afirmar que praticar exercício físico não contribui para emagrecimento no nível individual. O conceito já foi provado (termodinâmica), basta agora saber qual tipo de exercício individualmente poderia ser prescrito pelo profissional de educação física.
Próxima pergunta: Sendo o balanço energético negativo plausivelmente extremo para eficácia no emagrecimento, o exercício físico contribui para sua promoção?
Considerando que existe um contínuum de diferentes resultados, a resposta deve ser: Depende!
A relevância clínica é dependente do nível de déficit proposto, características do treinamento e do indivíduo que o realiza (estágio de vida e aptidão). Exemplificando, é mais provável que um idoso, por questões fisiológicas, tenha maior dificuldade em estabelecer um grande dispêndio energético semanal sustentado do que um adulto jovem. Portanto, essa decisão deve ocorrer pelo profissional da educação física em compartilhamento com o avaliado. De preferência, baseado em um pensamento econômico (relação custo x benefício).
A abordagem da hipótese com relação ao metabolismo e melhora da flexibilidade metabólica (sensibilidade a insulina e função mitocondrial) não podem ser tratadas como hipóteses no mesmo nível de plausibilidade que a termodinâmica mencionada anteriormente, uma vez que poderemos ter mudança no uso dos substratos energéticos mesmo sem déficit calórico (por exemplo, dieta cetogênica está associada com maior oxidação de gordura, mas sem diferença no emagrecimento quando se ajusta para calorias). Portanto, é necessário ensaio clínico de eficácia para auxílio na prova do conceito.
Não resta dúvida que exercício físico melhora a qualidade de vida, funcionalidade e diminui o risco de transtornos psicológicos/comportamentais. Caso alguém te pergunte sobre a eficácia dessa intervenção no emagrecimento, recomendaria uma resposta objetiva: "Procure o profissional de educação física e um nutricionista para que ambos possam intervir e promover um balanço energético negativo sustentado, juntamente com os outros benefícios comprovadamente conhecidos".
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