sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Artigo científico e a boa evidência


Provavelmente você já ouviu alguém ensinando a pesquisar e discutir informações com base na busca de artigos científicos nas mais diversas bases de dados. Mas, se temos artigos "científicos" disponíveis, porque perdemos tanto tempo dialogando informações e formulando conhecimento?

Eu costumo dizer que os artigos científicos, simplesmente, são formas variavelmente delineadas com objetivo de fornecer informações necessárias para formulação do pensamento científico. Mas para que esse artigo disponível exprima valor científico torna-se necessário que tanto os autores quanto os leitores estejam preparados mentalmente para suspender seu juízo, buscar a indiferença e a paz interior. Que ambos se recolham em sí mesmos e deixem que a síntese e os resultados do estudo sejam provenientes da multiplicidade de resultados possíveis da natureza da pesquisa.

Sendo assim, nós encontraremos artigos científicos classificados como de baixa evidência, os geradores de hipóteses e, por fim, os realmente capazes de nos AUXILIAR na mudança de nossas condutas (boa evidência). Destaquei a palavra "auxiliar" justamente para deixar claro que a mudança de conduta não é exclusiva da análise científica, mas complementados pelas características do paciente e o empirismo clínico. Por isso, ressalto a necessidade da mente profissional ser moldada pelo ceticismo, pois somente assim poderemos entender o momento de aplicar ou não as boas evidências ao paciente, mesmo que elas sejam realmente boas, a decisão final deve ser humildemente decidida pelo clínico.

Sendo a boa evidência uma forma probabilisticamente elevada de contribuir para modificação de conduta, podemos citar como exemplo o estudo Diabetes Control and Complications Trial (DCCT) publicado com o intuito de testar a "hipótese da glicose" na época e verificar se realmente controlar intensivamente a glicemia de diabéticos tipo 1 resultava em menor risco de complicações micro e macrovasculares. Sem dúvidas, muitos critérios de causalidade foram identificados como relevantes nesse estudo (plausibilidade, força de associação, dose resposta), apoiando os surpreendentes resultados para a época que foi realizado. Mas, analisando sob a perspectiva atual, o DCCT não é somente uma "boa evidência", mas também uma evidência que dificilmente não seria boa. Isso porque atualmente sabemos o elevado nível de plausibilidade que a terapia com insulina possui para o tratamento do DM tipo 1. Se você intensifica esse tratamento (como fez o DCCT) a probabilidade pré teste positiva se eleva.

Neste caso específico, avaliar plausibilidade faz muito sentido para entendermos a relação causal. No entanto, existirão milhares de outras situações em que a plausibilidade não poderá ser utilizada com tanta exclusividade para demonstrar relação causal (exemplo: Será que ofertar de 3 aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) gera hipertrofia muscular?). Embora ineficaz , BCCA e hipertrofia nos oferece plausibilidade, mas em uma proporção fraca. Por isso, sozinho, não garante benefício clínico.

No próximo texto falaremos sobre inferência causal, o que é uma plausibilidade extrema e não extrema, consistência, força de associação, dose resposta, reversibilidade...

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