sexta-feira, 30 de julho de 2021

A limitação dos estudos com alimentos


 Por que os estudos com alimentos são precários?

Essa é uma pergunta que poucos profissionais que trabalham com alimentos e saúde gostariam de responder. Antes de tudo, tenham em mente que essa não consiste em uma publicação destinada a estudos com dietas e sim com objetivo de avaliar benefício em desfecho clínico associado a alimentos isolados.

O primeiro problema nos ensaios clínicos com alimentos consiste no entrave associado ao tamanho da amostra. Aumentar o tamanho da amostra irá garantir menos erros aleatórios, menor risco de resultados devido ao acaso e maior poder estatístico. Se isso é importante para os estudos de uma forma geral, no caso dos ensaios com alimentos torna-se ainda mais necessário, tendo em vista o histórico de baixo tamanho de efeito clínico já observado nesses tipos de estudos e já demonstrado pelo epidemiologista Ioannids (quanto menor o tamanho de efeito, maior deve ser o tamanho da amostra).

O segundo problema está associado a presença dos fatores de confusão. Para compreender esse entrave basta observar que um indivíduo não consome somente um alimento no seu dia-a-dia. Do ponto de vista causal, isso contribui para a visualização de uma rede de causalidades diferentes que sim, poderão funcionar como fatores de confusão capazes de interferir nos resultados dos estudos. Isso é um problema grave e extremamente difícil de controlar na epidemiologia nutricional.

Um estudo que busca avaliar o benefício da castanha do Pará na melhora do colesterol em pacientes com obesidade dificilmente garante que os indivíduos estudados não possam consumir peixe, azeite oliva, linhaça ou uma dieta com que contenha algum alimento fonte de fibras solúveis. Cada alimento deve ser visto como uma teia dentre uma rede de causalidade.

Por que os estudos com alimentos ainda estão sendo produzidos?

Me arrisco a dizer que o principal motivo ainda é o viés de publicação e a permuta da "qualidade" pela "quantidade" dos ensaios publicados (publica-se em demasia, mas com pouco rigor) 

Por fim, a maioria dos nutricionistas ainda precisam deixar de lado a visão superestimada do "estilo de vida acima de tudo" e adquirir um pensamento mais racional do benefício adquirido por condutas nutricionais que não sejam provenientes de crenças fora do escopo científico.

Todos os estudos com alimentos são ruins?

Podemos dizer que não, mas não me arrisco a dizer que são necessários. Estudos exploratórios e aqueles que buscam investigar algo proveniente de uma hipótese óbvia são estudos possíveis para avaliação de uma benefício (exemplo: Estudo com fontes alimentares biodisponíveis de ferro-heme no tratamento da anemia ferropriva ou outros que avaliem o benefício em deficiências nutricionais).